Num cenário onde tecnologia e negócio caminham cada vez mais juntos, medir o impacto das entregas é um desafio real que as lideranças enfrentam. Especialmente quando a conexão entre produto, tecnologia e estratégia ainda não é clara.
Neste bate-papo, TIAGO JENSEN , Gerente de TI na Amicci, compartilha reflexões práticas sobre como métricas simples e um diálogo transparente entre times técnicos e executivos, ajudam a manter o foco no que realmente importa e a construir uma cultura orientada a resultados.
O que você aprendeu sobre diferenciar entregas que “dão trabalho” daquelas que “geram resultado”?
Uma das lições que aprendi é que no desenvolvimento de software e na criação de produtos digitais é muito importante medir o impacto gerado pelas entregas. Mais do que simplesmente entregar funcionalidades, é essencial garantir que elas estejam alinhadas com os objetivos estratégicos da empresa e ter métricas para garantir se de fato elas trouxeram o valor esperado.
Nem sempre aquilo que demanda muito esforço ou complexidade técnica contribui de fato para mover os indicadores do negócio da empresa. Como bem disse Peter Drucker:
'Não há nada tão inútil quanto fazer eficientemente o que não deveria ser feito.'
Por isso, foco e intencionalidade são fundamentais: para entregar valor não é necessário apenas construir, mas construir o que realmente importa.
O que você considera um bom conjunto mínimo de indicadores para avaliar se produto e tecnologia estão performando bem de verdade, tanto no técnico quanto no estratégico?
Do ponto de vista de estratégia de produto, gosto bastante de trabalhar com OKRs trimestrais ou semestrais, por ser leve e fácil de implementar e acompanhar. Medir o NPS também é muito importante para avaliar a satisfação do cliente com o produto e o CSAT para olhar para interações específicas.
Já do ponto de vista técnico e de acompanhamento de times de tecnologia, gosto das métricas ágeis : Throughput e Leadtime, além do acompanhamento da quantidade de bugs críticos do produto, débitos técnicos, quantidade de incidentes e etc. Também utilizo as métricas do DORA Metrics e de Uptime dos serviços. Falando do dia a dia do produto, é muito importante colocar métricas que cubram as jornadas de produto para entender como está sendo a jornada dentro do produto e da funcionalidade. Hoje em dia existem diversas ferramentas para isso que coletam eventos de uso da plataforma.
O que você considera como base essencial para comunicar o impacto da tecnologia na estratégia de negócios para lideranças?
Considero que é muito importante ser transparente com as lideranças da empresa. O principal resultado de engenharia, acredito que vai na forma do valor gerado, ou se está atingindo um resultado de negócio. Embora existam métricas próprias de engenharia como medir qualidade dos serviços, custos de infraestrutura, quantidade de bugs, velocidade e qualidade dos times de desenvolvimento de software, elas devem ser acompanhadas pelas lideranças de tecnologia. O resultado que ela entrega no fim do dia deve ser sempre o impacto no negócio.
Se pudesse listar três erros e três acertos que já viveu ao avaliar se o produto e as entregas estão performando bem, quais seriam?
Negativos
Um erro comum é não pensar em como medir uma entrega ainda na etapa de desenvolvimento ou na etapa de Discovery, de geração da ideia. Esperar colocar em produção para depois pensar em como medir o resultado. A grande desvantagem é que podemos não saber depois como medir. Ou perdemos os dados do lançamento da feature porque não tínhamos implementado métricas de medição.
Outro erro é não ter essa cultura de medir o produto e suas funcionalidades, os times saem entregando features e funcionalidades em produção sem medir resultados. O grande problema disso é saber se estamos indo para o caminho correto. Ou até investir esforço em algo que não deveria continuar a evoluir. A pessoa lança a fase 1 da funcionalidade. Ninguém está usando e ele está desenvolvendo a fase 2 da mesma.
O time sair da estratégia acordada ou não acompanhar os OKR. Simplesmente começam a fazer algo porque gostaram ou porque acreditam ser importante sem nenhum dado ou sem estar conectado ao negócio. No meu caso, acredito que as falhas foram mais de não acompanhar se o que estava sendo entregue acompanhavam ou se estavam impactando os Key Results de um objetivo.
Positivos
Trabalhar com métricas desde o momento do Discovery, elas fazem parte da cultura do time. O time entende a importância de medir e de gerar resultado, todo mundo trabalha a favor disso.
Ter objetivos claros, o time saber a missão e o resultado que ele precisa entregar, para isso um bom OKR ajuda a dar essa clareza.
Não adianta somente ter o OKR. Ele tem que fazer parte do dia a dia do time. Gosto de toda a review de time falar deles, o que podemos fazer para atingir, temos que pivotar, temos que mudar a estratégia.
Para medir o impacto real de tech, quais métricas tradicionais você destaca e o que você leva em conta além delas?
A tecnologia precisa ser o Core da empresa ou as pessoas de tecnologia precisam pensar em negócio e como gerar valor para o negócio. Um erro comum de profissionais de tecnologia é pensar muito na linguagem, na qualidade de código e não conectar essa entrega ao negócio, a entrega de valor de fato. Por isso, gosto de coisas leves e fáceis de acompanhar, e que sejam de fácil entendimento tanto para as pessoas de tecnologia quanto para as pessoas de negócio, por isso sou fã de OKR, mas para quem não utiliza esse framework precisa ter uma clareza se está atendendo o objetivo alinhado com a companhia e ter de fato um combinado. Acredito ser importante quinzenalmente o time falar sobre resultado, olhar para as métricas e se provocar se está indo para o caminho correto.
Por exemplo, o time está trabalhando em gerar vendas de um plano superior ao atual do usuário. Quinzenalmente tem que olhar se atingiu o resultado e as áreas de produto, design e engenharia têm que se provocar, fazer a pergunta: Estamos realmente fazendo tudo que podemos para gerar UpSell? Como fazemos para o cliente levantar a mão e querer ir para outro plano superior? Eu acredito muito nesse trabalho coletivo e na força das perguntas certas.
Quais os principais desafios que você enfrenta hoje para mostrar que tecnologia está diretamente contribuindo com a estratégia da empresa?
Na minha opinião, hoje em dia é difícil termos empresas que não têm uma ligação forte com tecnologia, ou que não é difícil alavancar mais a empresa por meio da tecnologia. Mas o grande desafio das lideranças de engenharia é saber se comunicar com as outras lideranças e com o C-Level da empresa para comunicar resultados e até mostrar as dificuldades que a área de tecnologia está passando, principalmente em empresas em que o CEO não é tão técnico. Ainda assim acredito na transparência e no diálogo.




